Erra quem afirma que “qualquer
escola é melhor do que nenhuma escola”. Em tempos em que a sociedade
sugere tantas formas de fazer política pública para a educação, por que
não ousamos de fato transformá-la?
Lendo e ouvindo o que se escreve e diz sobre a educação no país,
parece que chegamos a alguns consensos, ou quase-consensos, acerca da
escola pública brasileira.
Primeiro, ela vai mal. Disso ninguém mais duvida (e está aí o
último resultado do Enem para provar a afirmação). Segundo, é necessário fazer alguma coisa, urgentemente, para que sua qualidade melhore.
Terceiro, ela só vai melhorar se lhe destinarmos mais recursos e
conseguirmos implantar “políticas públicas” adequadas que corrijam seus
problemas mais graves. (“Políticas públicas” é a expressão-chave na
qual todo discurso acaba chegando).
O problema, porém, é que, ao tentar melhorar a qualidade da escola
pública brasileira, a maior parte das iniciativas, governamentais ou
não, nacionais ou estrangeiras, tem buscado soluções de problemas
segmentados e específicos que, mesmo que solucionados, não representarão
necessariamente uma melhoria substantiva e significativa na qualidade
da educação brasileira.
Ilustro com algumas políticas públicas desse tipo que têm sido sugeridas e, em alguns casos, até mesmo implementadas:
- Políticas voltadas para o aumento do período de escolaridade
obrigatória: era de 4 anos, passou a ser de 8, depois 9, e já se faz
campanha para que seja de 12 anos e abranja o Ensino Fundamental e o
Ensino Médio;
- Políticas voltadas para o aumento do número mínimo de dias letivos: o
ano escolar tinha 160 dias, passou a ser de 180, chegou a 200 e já se
fala em aumentá-lo para 220;
- Políticas voltadas para o aumento da duração dos turnos diários,
chegando-se, no limite, à escola de tempo integral (que quase todo mundo
parece considerar ideal);
- Políticas voltadas para a garantia da presença e da permanência na
escola da criança e do adolescente que, por alguma razão, estão fora
dela;
- Políticas voltadas para a redução da repetência e da evasão (ainda que se aplique a promoção automática);
- Políticas voltadas à correção das defasagens idade/série;
- Políticas voltadas à melhoria do salário dos professores ou à
introdução de mecanismos de remuneração que privilegiem desempenho e
mérito;
- Políticas voltadas à extensão e melhoria da formação dos professores;
- Políticas voltadas à introdução da tecnologia na escola e à
implantação de programas de educação a distância (inclusive para a
formação de professores).
Quando os políticos, a mídia ou a academia propõem essas medidas, raramente levantam questões pedagógicas básicas como, por exemplo:
- A natureza da educação –> O que é educar?
- A razão de ser da educação –> Por que educar?
- O objetivo da educação –> Para que educar?
- Os agentes da educação –> Quem educa?
- A essência da aprendizagem –> O que é aprender?
- O currículo –> O que as pessoas devem aprender?
- A metodologia –> Como as pessoas aprendem?
- A avaliação –> Como se afere se alguém aprendeu o que se propôs aprender ou o que se esperava que aprendesse?
No entanto, é a resposta a essas questões sobre a natureza, a razão
de ser e o objetivo da educação e da aprendizagem que deve nortear, de
forma tácita ou consciente, as decisões acerca da função da escola, do
acesso a ela, da obrigatoriedade da permanência nela, ou acerca da
formação do professor e da avaliação e remuneração do seu trabalho. Ou
vejamos.
Políticas voltadas para garantir a presença e a permanência da
criança na escola e aumentar seu tempo de permanência nela só fazem
sentido se a experiência escolar for uma genuína experiência de aprendizagem.
Há evidência incontestável, hoje, de que a mera permanência dos alunos
na escola, ainda que em período integral e durante quase o ano inteiro,
não produz, necessariamente, aprendizagem genuína daquilo que é
essencial ou importante saber e saber fazer.
Na maior parte do tempo a experiência escolar é vista – pelo menos
por suas vítimas, os alunos – como basicamente inútil (não serve para
grande coisa) ou até mesmo desagradável (“chata” é o principal termo que
se aplica à aula, que ainda hoje é a experiência pedagógica central no
ambiente escolar). O resultado comprovado são crianças e adolescentes
que passam oito anos na escola e não aprendem nem mesmo a ler e escrever
decentemente na língua materna – quanto mais em língua estrangeira. As
coisas interessantes que eventualmente aprendem, eles parecem aprender
fora da escola.
(A situação me faz lembrar uma frase atribuída ao escritor
norte-americano Mark Twain, que teria dito que nunca deixou que a escola
interferisse na sua educação…).
Como ressaltei em 2003 em minha fala do congresso “Educação e
Tecnologia para o Desenvolvimento Humano” (realizado pelo Instituto
Ayrton Senna em parceria com a Microsoft Brasil), não é qualquer escola
que serve. Erra quem afirma – como um dia afirmou o Senador Cristovam
Buarque, quando Ministro da Educação – que “qualquer escola é melhor do
que nenhuma escola”.
A escola ruim, além de não fazer bem, causa muitos males, como, por exemplo:
- Desperdício de recursos de quem a cria e mantém e perda de tempo de quem a freqüenta;
- Diminuição da curiosidade e da vontade natural de aprender por parte
dos alunos, que passam a ver a aprendizagem, a educação e a escola como
coisas chatas, não desafiadoras, que nada têm a ver com as coisas boas e
interessantes da vida;
- Fracasso escolar de alunos que poderiam aprender muito e com prazer
em uma escola diferente mas que, em decorrência da experiência escolar,
concluem que a causa do fracasso está em si mesmos e não na inadequação
da escola.
É por isso que políticas públicas voltadas para a solução de
problemas segmentados, ou específicos, não resolvem o desafio da
qualidade na educação – em especial na educação pública. Precisamos de
uma abordagem sistêmica, que olhe para a educação como um todo, formal e
não-formal, e que seja radical, isto é: tenha por objetivo uma
transformação radical e não pequenas mudanças que podem melhorar um
pouquinho aqui e ali, que podem reformar um ou outro aspecto mais grave
ou urgente, mas não afetam o todo de forma significativa.
Esse tipo de transformação radical e profunda precisa buscar real
inovação, o claramente novo. Não basta melhorar, reformar o que já
existe. Precisamos de transformação, não de reforma. Precisamos, na
verdade, de uma nova educação, não de uma melhora na educação que temos.
“Para mudar o mundo, precisamos imaginá-lo diferente do
que é hoje. Se, nessa visão, usarmos muito do conhecimento e da
experiência que nos trouxeram até aqui, terminaremos exatamente onde
começamos… Para ter um resultado diferente, temos de olhar as coisas de
uma perspectiva radicalmente diferente.”
Uma frase atribuída a um monte de gente famosa diz que o cúmulo da
estupidez é continuar a fazer exatamente a mesma coisa e esperar que o
resultado venha a ser significativamente diferente.
Cito um exemplo do que boa parte da sociedade propõe como mudança na
educação: todo mundo diz que o professor precisa ser melhor formado e
remunerado porque ele é e continuará a ser o portão de entrada para a
educação para a maioria das pessoas. Mas será que isso, ainda que
verdade no passado, continuará a ser verdade no futuro? Quem garante
que a escola do futuro, transformada, terá professores como os
conhecemos? Na realidade, quem garante que a educação do futuro terá
escolas como as que conhecemos hoje?
Ivan Illich vinha, já há muito tempo, insistindo na desescolarização da sociedade,
como já falamos neste blog.
E ele propôs isso muito antes de a tecnologia transformar a nossa
sociedade em uma sociedade da informação, do conhecimento, da
aprendizagem – na verdade, em uma sociedade aprendente (
learning society). John Holt, amigo de Illich, escreveu em
Freedom and Beyond:
“As pessoas, mesmo as crianças, são educadas muito mais
por toda a sociedade em que vivem e pela qualidade geral da vida dessa
sociedade do que por aquilo que lhes sucede na escola”.
Por que, então, a gente não ousa transformar o que passa por educação
e reinventar a escola? Cito um exemplo agora de fora da área da
educação, envolvendo o mercado livreiro, Jeff Bezos e a Amazon. Neste
setor sim tem ocorrido uma real mudança de paradigma.
- Os livros impressos, como os conhecemos, existem há cerca de 550 anos num mercado que era, até há pouco tempo, bastante estável.
- Livrarias físicas eram a principal forma de distribuição dos livros
aos usuários finais, e, por muito tempo, funcionário com pouca ou mesmo
nenhuma tecnologia (usando cadernos e fichas para controle de estoque,
cadernos ou simples máquinas de calcular ou caixas registradoras para
controle de vendas e fluxo de caixa, folhas de cálculo para
contabilidade e, se fosse o caso, folha de pagamento.
- A chegada de tecnologia básica (computadores com planilhas
eletrônicas ou programas comerciais integrados) permitiu que o livreiro
continuasse a fazer a mesma coisa que já fazia, só que, agora, com
pequenos ganhos de eficiência – uso conservador da tecnologia.
- A chegada de tecnologia ainda básica, mas com acesso à internet,
permitiu que o livreiro criasse um site para a livraria e que anunciasse
seus livros nele, assim aumentando o alcance de sua comunicação e
propaganda – uso levemente reformador da tecnologia.
- A chegada de tecnologia um pouco mais avançada permitiu que o
livreiro passasse a vender livros também online, acrescentando um
subsite de venda ao site da livraria – uso bem mais reformador da
tecnologia que estendeu o escopo do negócio, posto que qualquer pessoa,
em qualquer lugar do mundo, pode comprar um livro no site. Entra Jeff
Bezos em cena e cria uma livraria que não tem estoque, só tem catálogo, e
que, na realidade, intermedeia a venda de livros para o
comprador-leitor.
- O desenvolvimento de tecnologia relativamente sofisticada permitiu
que Jeff Bezos passasse a criar perfis altamente sofisticados dos seus
clientes – uso de tecnologia (banco de dados com ferramentas analíticas
sofisticadas) que leva o uso reformador da tecnologia no ambiente
livreiro ao seu limite.
- Tecnologias mais sofisticadas permitem a criação e a comercialização
de livros eletrônicos e de leitores de livros eletrônicos – uso agora
criativo, inovador e transformador da tecnologia, que revoluciona o
mercado livreiro e deixa editores e livreiros tradicionais, para não
falar em fabricantes de computadores, em polvorosa.
Por que não conseguimos fazer uma transformação desse tipo na educação? Por que não conseguimos reinventar a escola como
Jeff Bezos reinventou o mercado livreiro?
Eu sugiro que, para transformar a escola atual em um ambiente de
aprendizagem digno do nome, é preciso repensar, de forma drástica e
radical, o que entendemos por educação e dar respostas verdadeiramente
inovadoras a questões como “Por que educar?”, “Para que educar?”, “Como
educar?”
Somente dessa forma seremos capazes de “integrar políticas” voltadas
para a educação – esta entendida como desenvolvimento humano – e
apresentar soluções sistêmicas que, aplicadas, melhorem substantivamente
a experiência de aprendizagem de nossas crianças, adolescentes e jovens
(na realidade, de todas as pessoas).
Eduardo Chaves, artigo de 2006.