Leia a publicação abaixo da revista Cláudia. É de 2008, mas altamente reflexiva.
O poder transformador da educação.
Ela vem antes do progresso e é fundamental para que ele aconteça. É o que mostra a trajetória de países como Coréia do Sul, China e Espanha. No Brasil, ainda há muito a fazer e é preciso fazer já.
O que têm em comum países tão diferentes como Finlândia, Coréia e Espanha? Não são os costumes nem a localização. O que os aproxima hoje é a prioridade absoluta que dão à educação. São bons exemplos de uma transformação radical no cenário econômico mundial ao longo das últimas décadas: a revolução provocada pela educação. Esse trio pôs em prática uma nova cartilha de políticas educacionais contínuas (os governos mudam, mas não o compromisso de mantê-las) e focadas: passaram a selecionar com mais rigor os professores, reformaram as leis educacionais e ampliaram o tempo de permanência na sala de aula. Como fruto disso, os três colhem intenso desenvolvimento social. A competição econômica, a globalização e o surgimento de uma civilização baseada no conhecimento fazem com que o papel fundamental da educação saia do plano da retórica, circule nos gabinetes de governo, invada as rodas de empresários e passe a integrar a agenda de todo cidadão.
Basta pensar no que vem acontecendo em nossas próprias casas. De repente, siglas como Enem, Pisa, Ideb e MBA passaram a fazer parte do planejamento do futuro dos filhos. Embora uma pesquisa realizada em 2006 pelo Ibope indique que a educação é apenas a sétima preocupação do brasileiro, atrás de drogas e desemprego, convém ficar de olho: em breve, estará entre as primeiras. O país começa a despertar para essa nova corrida do ouro.
Afinal, por que a educação faz tanta diferença? “Porque é uma dimensão da vida em sociedade que afeta todas as demais. Incide sobre a qualidade da representação política, a distribuição de renda, o desenvolvimento econômico e a justiça social”, responde o ministro da Educação, Fernando Haddad. Talvez o impacto mais visível seja sobre a renda. Segundo um estudo realizado em 2007 pelo economista Marcelo Néri, da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, o salário médio de um médico pós-graduado chega a ser 22 vezes maior que o de um analfabeto. Melhorar o nível de educação de um país incide até mesmo sobre o planejamento familiar. Aos 50 anos, uma mulher que completou ao menos o ensino básico tem, em média, um filho a menos do que o conjunto das mulheres dessa faixa etária. O ministro destaca ainda a mudança de demandas dos menos favorecidos. “Com educação, a tendência é que as famílias exijam mais qualidade.”
Basta pensar no que vem acontecendo em nossas próprias casas. De repente, siglas como Enem, Pisa, Ideb e MBA passaram a fazer parte do planejamento do futuro dos filhos. Embora uma pesquisa realizada em 2006 pelo Ibope indique que a educação é apenas a sétima preocupação do brasileiro, atrás de drogas e desemprego, convém ficar de olho: em breve, estará entre as primeiras. O país começa a despertar para essa nova corrida do ouro.
Afinal, por que a educação faz tanta diferença? “Porque é uma dimensão da vida em sociedade que afeta todas as demais. Incide sobre a qualidade da representação política, a distribuição de renda, o desenvolvimento econômico e a justiça social”, responde o ministro da Educação, Fernando Haddad. Talvez o impacto mais visível seja sobre a renda. Segundo um estudo realizado em 2007 pelo economista Marcelo Néri, da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, o salário médio de um médico pós-graduado chega a ser 22 vezes maior que o de um analfabeto. Melhorar o nível de educação de um país incide até mesmo sobre o planejamento familiar. Aos 50 anos, uma mulher que completou ao menos o ensino básico tem, em média, um filho a menos do que o conjunto das mulheres dessa faixa etária. O ministro destaca ainda a mudança de demandas dos menos favorecidos. “Com educação, a tendência é que as famílias exijam mais qualidade.”
Nossos vizinhos acordaram antes: em 1960, cerca de 21% da população do Chile tinha ensino superior; hoje, são 36%. No caso brasileiro, passamos de pouco mais de 12% para minguados 16% no mesmo período – menos da metade dos 36% que a Argentina registrava já em 1995, segundo dados da Unesco, o órgão das Nações Unidas para a educação e a ciência. O caso da China é também emblemático. “A China imperial do século 14 atingiu níveis econômicos que o império britânico só alcançaria três séculos depois”, lembra o economista Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas. Uma característica marcante da sociedade chinesa dessa época foi a meritocracia. Na elite dos mandarins, os altos funcionários públicos, a aquisição do conhecimento era condição básica para ascender. Hoje, projeções mostram que a China quintuplicará o número anual de graduados do ensino superior até 2015, passando de 1 milhão para 5 milhões de pessoas – o dobro dos Estados Unidos.
150 anos de atraso
No Brasil, a preocupação com a educação só virou política de governo nos anos 30, com Getúlio Vargas, que criou o primeiro Ministério da Educação. “Começamos 100 anos depois de outros países latino-americanos, 150 anos depois da Europa”, lamenta o ex-ministro Paulo Renato de Souza. Como resultado, amargamos indicadores vergonhosos: em 1960, 46% da população brasileira era analfabeta e metade das crianças e jovens de 7 a 14 anos estava fora da escola. Hoje, o analfabetismo está em torno de 11% e não há crianças fora da escola, mas a briga é pela qualidade. Paradoxalmente, o Brasil foi um dos países que mais cresceu ao longo do século 20. Para Paulo Renato, isso ocorreu porque o desenvolvimento se centrou em atividades primárias, como a agricultura e a exportação de minérios, que exigem pouca qualificação, e na manutenção de uma economia muito fechada.
O fato de não termos uma população majoritariamente educada levou à construção de uma das sociedades mais desiguais do planeta. A educação é a saída para mudar esse cenário: hoje, sabe-se que o caminho não é crescer e investir em educação, mas educar para crescer. “Todos os países que passaram de subdesenvolvidos a desenvolvidos investiram muito em educação, sendo que a educação veio antes do progresso. É o caso da Alemanha, no século 19, e dos Estados Unidos, que já tinham índices baixos de analfabetismo desde o século 18”, argumenta o economista Samuel Pessoa. “Mais recentemente, a Irlanda e a Espanha também estão crescendo após fazer uma minirrevolução educacional.” Para o ex-presidente do IBGE, Simon Schwartzman, diretor do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), o sistema econômico dependerá desse esforço. “Uma sociedade analfabeta precisará trazer especialistas de fora e será calcada na mão-de-obra desqualificada.”
A revolução coreana
A Coréia do Sul surge como o exemplo mais citado por economistas do mundo todo. Arrasado por uma guerra civil em meados do século passado, esse país viveu um surpreendente processo de desenvolvimento cuja locomotiva foi a educação. Num ranking de porcentagem da população com o ensino médio concluído, a Coréia do Sul passou de um distante 27º lugar, na década de 1960, para o 1º lugar nos anos 1990, desbancando os Estados Unidos, que caíram da 1ª para a 13ª posição. Graças a avanços como esse, vem crescendo 9% ao ano. No coração da mudança, está a valorização do professor. O salário inicial dos mestres coreanos está entre os mais altos do mundo, e a média supera em duas vezes o que se paga em países desenvolvidos. Isso faz com que os professores sejam selecionados entre os melhores formandos da universidade. No Brasil, pelo contrário, a carreira atrai os menos preparados.
Outro exemplo recente é o da Espanha. Com grande número de imigrantes vindos da África e das ex-colônias ibero-americanas, o país conseguiu equilibrar os resultados acadêmicos obtidos por alunos de diferentes origens sociais, segundo o pesquisador espanhol Álvaro Marchesi, secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI). “A transformação educacional espanhola incorporou a valorização da diversidade”, explica ele. Nasceram na Espanha iniciativas pedagógicas consagradas no mundo todo, como trazer para o currículo questões como a educação sexual e a igualdade entre sexos.
Outro exemplo recente é o da Espanha. Com grande número de imigrantes vindos da África e das ex-colônias ibero-americanas, o país conseguiu equilibrar os resultados acadêmicos obtidos por alunos de diferentes origens sociais, segundo o pesquisador espanhol Álvaro Marchesi, secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI). “A transformação educacional espanhola incorporou a valorização da diversidade”, explica ele. Nasceram na Espanha iniciativas pedagógicas consagradas no mundo todo, como trazer para o currículo questões como a educação sexual e a igualdade entre sexos.
A mais respeitada aferição de qualidade dos sistemas de ensino do mundo é realizada por meio do rigorosíssimo Pisa, sigla de Programme for International Student Assessment. Criado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), avalia o desempenho de alunos de 15 anos em áreas como matemática, linguagem e ciências. Os resultados, divulgados a cada três anos, podem forçar a mudança de políticas e derrubar ministros. “O Pisa vem mostrando que as perspectivas sociais e econômicas dos países dependem da educação de seu povo”, afirma Andreas Schleicher, diretor da Divisão de Indicadores e Análise do Departamento de Educação da OCDE.
Os números divulgados em dezembro de 2007, relativos à avaliação aplicada em 2006, trouxeram informações importantes sobre a educação brasileira. Além de confirmar o Brasil entre os últimos do ranking, o estudo mostrou que o nosso problema educacional não se encerra na escola pública nem na população mais carente: o nível da escola brasileira situa-se abaixo da média mundial, com raras exceções. Em ciências, a maioria dos alunos mistura fatos com opiniões pessoais. Em matemática, em uma escala que vai de 1 a 6, 73% dos alunos brasileiros ficaram no patamar mais baixo.
Os números divulgados em dezembro de 2007, relativos à avaliação aplicada em 2006, trouxeram informações importantes sobre a educação brasileira. Além de confirmar o Brasil entre os últimos do ranking, o estudo mostrou que o nosso problema educacional não se encerra na escola pública nem na população mais carente: o nível da escola brasileira situa-se abaixo da média mundial, com raras exceções. Em ciências, a maioria dos alunos mistura fatos com opiniões pessoais. Em matemática, em uma escala que vai de 1 a 6, 73% dos alunos brasileiros ficaram no patamar mais baixo.
O gigante acordando
"Sem educação, não haverá crescimento sustentável”, afirma o ex-secretário da Educação de Pernambuco Mozart Neves Ramos, presidente do Todos pela Educação, movimento de empresários do qual faz parte Jorge Gerdau Johannpeter, que dirigiu até há pouco um dos maiores conglomerados siderúrgicos das Américas. “Só conseguiremos mudar a educação se mobilizarmos toda a sociedade. E isso significa muito mais do que mandar nossos filhos para a escola”, acredita Gerdau. Movimentos como esse mostram que o país parece ter acordado para o problema. “Formou-se a consciência histórica que marca os momentos das grandes transformações numa nação”, acredita o ministro Fernando Haddad. Um bom sinal é o estabelecimento de metas de longo prazo que serão avaliadas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Espera-se que, até 2021, as escolas brasileiras atinjam o patamar das nações da OCDE, que obtêm média de 6 pontos numa escala de 0 a 10. A média das escolas de ensino fundamental ainda é 3,8, mas houve avanços entre 2007 e 2008. “Se cumprirmos as metas a que nos propusemos, ano após ano, chegaremos lá”, diz o ministro.
